Ela andava meio triste, é verdade, sabia muito bem disso, já não conseguia mais disfarçar, acordava todo dia com um vazio enorme no coração, mas como superar? Acabou por buscar aventuras passageiras, mas esses homens nunca a fizeram feliz de verdade, nem por um instante, nada. “Sempre em busca de respostas” ela não se cansa de repetir para si mesma, respostas para perguntas que ela nem consegue formular, ou que na verdade são respostas que ela não quer saber, porque podem doer muito mais do que a dúvida.
Sai a andar pela rua, procura nos rostos desconhecidos algum que lhe seja minimamente conhecido, não encontra, fica mais triste, quer se livrar de toda essa angustia, mas essa parece não querer lhe abandonar de maneira alguma. Ela já não sabe o que fazer ou o que não fazer, então decide não fazer nada, mas isso também não lhe ajuda em nada, exatamente, fazer nada não resolve nada.
Então ela para, senta, e ela pensa nas coisas que já viveu, por tudo o que passou, por todos os homens pelos quais ela chorou, estará pronta para recomeçar? E eis que derrepente surge esse que lhe tira o fôlego, ele dá aquele sorriso lindo, e ela estremece. Ela pensa que ele pode estar brincando com ela, ela jura que quer acredita em cada palavra dita por ele, mas não consegue, ela simplesmente não acredita que pode ser verdade, vai ver se acostumou a nunca ser, trata tudo sempre na ironia, “uma arte alias” repete sempre, mas até quando se valerá desse argumento?
Teme que ele perceba suas fragilidades, e ela que luta tão ferozmente para que ninguém perceba o quanto é frágil e como precisa de ajuda. Pensa que sempre se virou muito bem, mas é mentira e seu coração sabe e seus olhos lhe traem, sente enxerem-se de lagrimas. Não! Não vai chorar agora, isso só iria piorar tudo. Já não sabe o que fazer para disfarçar suas “necessidades afetivas”, como gosta de chamar seus próprios sentimentos. Chorar é para os fracos! E ele não pode vê-la como uma fraca!
Ele lhe sorri, ela esquece por um momento de tudo e apenas vê o sorriso, fosse tudo tão belo assim! Por um segundo ela acredita que o sorriso lhe pertence e que merece recebê-lo, seu coração já sabia de tudo bem antes, mas sua razão nega saber, porque quer acreditar que o quanto mais negar, quanto mais se convencer dessa mentira tudo se acertará, “uma mentira contada muitas vezes se torna uma verdade” gosta de acreditar. Não, não estará ela apaixonada por ele, ou estará? Ela negará até o fim.
Ela pensa muito sobre as coisas que lhe acontecem, alguém disse que esse era seu maior defeito: pensar muito, agir pouco. Gosta de andar por terrenos seguros, não suporta o desconhecido. Não admite, mas morre de medo de tudo o que não pode controlar, não sabe sair sem compromisso, precisa sempre de um plano, leva essa mania de planos para a vida amorosa, mesmo sabendo que é impossível ter tudo sob controle quando se trata de coração. Mesmo assim, não para de pensar e bolar todos os planos possíveis para tirá-lo da cabeça, pouco provável que consiga, mas ainda não se deu por vencida , ela está confiante que conseguirá, vai superar essa “paixonite”, como ela apelidou o que sente. E continua a perder tempo pensando.
Depois de muito, ela se sabota, e o observa, sabe que esse momento tem tudo para acabar mais rápido do que um suspiro, então ela examina seu rosto: seu queixo, seus lábios, o movimento de seus olhos, como se cada parte de seu rosto fosse uma peça autônoma, ou uma peça de um quebra-cabeça, uma parte separada de um todo, ela quer gravar ele na memória, por um instante é feliz, depois se cansa, algo lhe grita que não vale à pena se apegar a ele, ele talvez nem sinta o mesmo que ela, “provavelmente não, acho que é apenas um jogo, e eu estou perdendo” pensa. Assumir o risco de se apaixonar é um preço muito alto para algo que ela diz ser apenas um passatempo, tenta se convencer disso.
E nessa toada de auto ilusão, ela busca refugio em outro, pensa que assim vai esquecer ele, mas o outro não é e não tem o que ela precisa, em uma atitude tola ela busca ele no outro, os olhos, os lábios, o queixo, não, ela não encontra ele no outro, é tão obvio para ela como para o outro, porque ela não pensa no outro, nem no que este sente, quer livrar o pensamento, quer tirar ele da mente, do coração, da boca, das mãos...e o sorriso não lhe deixa em paz. Ele continua a sorrir em seus sonhos e o outro? O outro não tem o sorriso que ele tem, por isso ela parte para longe do outro.
Volta por impulso os pensamentos para ele, ele continua lá, ele e seu sorriso. Ela o procura com os olhos, segura seus impulsos de tocá-lo, então o tateia com o olhar, ele continua a sorrir, seus lábios são aqueles que ela conhece tão bem, sua voz, seu olhar, “me deixa em paz!” ela grita para ele, e corre, corre para bem longe, onde ele não lhe chegue aos pensamentos, para onde os pensamentos nele não a alcancem.
Ficar longe, ela acredita que esse pode ser o segredo para que ele lhe saia dos pensamentos, “cortar o mal pela raiz”, mas ela sofre mais ainda, seu coração está aos prantos, sonha que ele divide a cama com ela, mas ela acorda sempre sozinha, se entristece como nunca antes , ela sabe que precisa dele, mas terá coragem de dizer-lhe tudo o que sente? Dessa vez não sabe, é a primeira vez que se sente tão perdida, tão fora de seu próprio controle, pensamentos a atordoam, ela que sempre foi tão senhora de si, sempre tão forte, agora se vê nessa tormenta, seus olhos procuram o dele, mas ela se colocou tão distante dele e ele parece já ter esquecido ela a muito tempo.
Ele...e onde estaria ele? Ela não sabe, e a culpa é toda dela, ela sabe disso.
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_____ELE_____
Todos os dias ele percebe que lhe falta companhia, está cansado de noitadas intermináveis, mas a procura parece inesgotável, quantas vezes já não se viu na companhia de quem não queria nem ter conhecido? O problema é que já não sabe mais onde procurar, sente o tempo passando rápido demais, teme ficar sozinho para sempre. Percebe que sente uma urgência estranha, por estar e ser com alguém.
Ela passa por ele, ele já a observava de longe, lhe oferece uma bebida, ela recusa, insiste, ela parece-lhe inatingível, tenta conversar, ela pede uma bebida ao barman e agora parece mais “sociável”, puxa todos os assuntos, ela parece tão fria que ele se pergunta por que se atraiu por ela, deve ser algo no olhar, algo de menina, ele desconfia que já a viu em algum lugar, ele se aproxima, sorri e toca-lhe o rosto, ele sente ela se deixar levar por impulsos, mas não entende o que a segura dentro dessa redoma de gelo.
Ele lhe procura com os olhos, com as mãos, não consegue senti-la, percebe seu temor e não consegue aliviá-lo. Ele nunca encontrou alguém como ela e não se cansa de dizer-lhe isso, também percebe que ela não acredita no que fala. Ele a vê tão distante, ela lhe parece tão estabelecida em seus argumentos pomposos, suas frases perfeitas e respostas prontas, quer saber o que a deixou assim, “quem fez isso com você” ele pensa enquanto a sente com o olhar.“Mas o que é isso?”, ela parece tão triste, ele quer ajudá-la, quer fazer um carinho, lhe dar atenção, porque ela se afasta tanto dele? Tem medo? Ele que nunca lhe fez nada de mal, quer envolve-la nos braços, tão difícil fazer com que ela perceba que o que ele fala é o que sente.
Sempre buscando por ela. Ele a quer, mas quer ela por inteiro, ”de corpo, alma e coração” ele diz a ela, porque ela nunca acredita nele? Ele já começa a ficar irritado, não gosta desses tipos de joguinhos, ela parece estar sempre fugindo, até quando ele terá que correr atrás dela? Ele está se cansando disso, quer dar um tempo nela, não quer mais participar disso. Mas então ela some antes! Desapareceu, não a vê mais. Era tudo o que ele queria, já não aquentava mais ela e seu olhar, ela e seu jeito de falar, ela e seus ideais, ela e seu rebolar, ela se seu narcisismo, ela...ele quer acreditar nisso e também quer sumir, e some.
Mas sumir assim? Como um covarde? Ele sabe que não é covarde, apenas está realmente muito cansado de tudo o que ela o faz fazer, ele sente que se humilha frente a ela, mas por quê? Ele anda se esquecendo dos motivos que fizeram ele entrar nessa, já não se lembra o que o “impele” a se desgastar por ela, porque toda vez que ela não acredita no que ele diz, se por um lado isso alimenta a vontade que ele nutre em conquistá-la, por outro o deixa cada dia mais pessimista em relação a ele mesmo.
Sumir nunca havia sido uma opção, talvez seja a saída, se manter a uma distancia segura, para não cair na tentação de dominá-la. Sim, isso o que ele faz, primeiro busca refugio no seio de seu lar, mas esse lugar já está impregnado dela, para todos os lados, ela está sentada em seu sofá, imediatamente olha para o lado e lá está ela no banco do corredor tirando seus saltos depois de uma longa festa, foge para o banheiro, mas ela também está lá tomando banho e chamando por ele, parece que ele tem que fugir de sua própria casa.
Na rua, procura por um bar aberto, um lugar que ela não conheça, por que continua a pensar nela? Beber...beber é a solução? Tanto importa, ficar fora de si a essa hora da noite “definitivamente minha melhor escolha” e entra no boteco mais próximo. Entra, senta e bebe. Derrepente ela entra pela porta, “não acredito” pensa ele, finge que não a viu, abaixa a cabeça e disfarça estar mexendo no celular. Depois de um tempo ergue os olhos novamente, ela já não está mais lá. Quando percebe “olha ela lá!” conversando com o barman, mas espera...ela trocou de roupa? Barulho de porta fechando...ali! Ela sentando em uma mesa...indo ao banheiro...beijando o jogador de bilhar...tomando uma cerveja...saindo do bar sozinha? “Devo é estar ficando louco”, louco não, bêbado já está desde a primeira aparição dela nessa espelunca. Paga a conta e vai embora, antes ela, porém única, do que mil, mas nenhuma ela verdadeira.
Segue para casa, quase não encontra a fechadura, ela insiste em se mexer! Deita na cama, por instinto a procura no travesseiro ao lado...é inútil! Pensa em correr para a rua e gritar “Steeeeella” como já fez Marlon Brando...não ela não se chama Stella...acaba adormecendo entorpecido pelo perfume dela, que ainda paira sobre seu leito. Seu leito era seu refugio antes que ela aparecesse em sua vida, agora piorou tudo, ela não lhe sai dos pensamentos mesmo em sonhos de bêbado!
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_____ELA E ELE_____
Eles eram dois tolos a procura de alguém que os completasse, mesmo se perguntando se esse alguém realmente existe, ela e ele sabem que esperar pelo príncipe/princesa encantados é inútil, porque esses simplesmente não existem. Ambos depositam desesperadamente todas suas esperanças no próximo relacionamento, como se este tivesse a obrigação de ser perfeito, cobrando uma perfeição inatingível do próximo parceiro, e matando a relação aos poucos, até substituírem a atração que os uniu com esses parceiros por repulsa, o carinho por destrato, o amor por indiferença.
Desde que se conheceram, ela se esforça para que ele não saiba o que ela sente por ele, ele por sua vez tenta ao máximo que ela perceba que ele gosta dela. Mas quanto disso é real e quanto é dissimulação?
Fácil de mais seria se ambos demonstrassem seus verdadeiros sentimentos, a vida amorosa dela e dele seria tão mais simples e o drama quase inexistente. Porem ela pensa tanto no próximo passo e reflete tanto nas palavras ditas por ele, ela pede que ele seja mais claro, mas mesmo quando está tudo bastante explicito, ela procura por “entre linhas”, mesmo que estas não estejam ali. Ele por sua vez percebe todas as dificuldades que ela tem de se entregar para alguém, quer explorar esse ponto fraco nela, que quebrar-lhe o escudo onde ela se protege por detrás, quer entrar em seu coração.
Mas por quê? Por que ela se protege tanto assim dele? Por que ele precisa tanto possuí-la? Talvez eles já tenham se esquecido por que entraram nesse jogo, porem ela e ele tem consciência que nessa brincadeira ambos serão atingidos, em alguma profundidade? “Que seja ele” pensa ela. “Que caia ela”, pensa ele. Entretanto, nessa de gato e rato, quem perde são os dois, ela e ele.
E um dia, superando quaisquer expectativas de ambos, eles se encontram. E se olham. Ela pensa "eu te amo", seus olhos lhe suplicam que ele a acolha entre seus braços num abraço sem fim, um ninho de afeto...mas ela não consegue pedir o que necessita. Ele a observa, "eu te amo" terá dito? Um grito preso na garganta, um nó na língua, as palavras não saem e doem...teria ela ouvido os pensamentos dele? Não, ninguém disse nada e o silêncio ecooa:
- Eu te amo tanto...
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