quinta-feira, 5 de julho de 2007

Soneto

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me mostraste o mar – com que navio?
E me deixaste só – com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio?

Chico Buarque de Hollanda

2 comentários:

André Luis Sant'Ana disse...

por vezes preferi estar morto
viver é muito arriscado ;~

Unknown disse...

Também me pergunto.
Pessoas que não têm esse direito, e que nos fazem agir como se elas fossem o centro do nosso universo.
E o pior é que não queremos esquecê-las, dizemos que foi um dos melhores acontecimentos de nossas vidas.
Abraçamos os espinhos.
Também, cansei de espinhos!